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Parece
não haver dúvida de que a ideia de nacionalidade
esteve por trás da restauração da independência
plena de Portugal após 60 anos de monarquia
dualista. Cinco séculos de governo próprio
haviam forjado uma nação, fortalecendo-a até ao
ponto de rejeitar qualquer espécie de união com
o país vizinho. Para mais, a independência fora
sempre um desafio a Castela e uma vontade de não
ser confundido com ela.
Aclamação de D. João IV, da autoria de Veloso
Salgado (Museu Militar, Lisboa)
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Entre os dois estados foram
sucessivas e acerbas as guerras, as únicas que Portugal
realmente travou na Europa. Para a maioria dos
Portugueses, os monarcas habsburgos não eram mais do que
usurpadores, os Espanhóis, inimigos, e os seus
partidários, traidores. Mas a Restauração carece de ser
explicada por grande número de outros elementos.
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Culturalmente, avançara depressa,
entre 1580 e 1640, a castelhanização do País. Autores e
artistas portugueses gravitavam nas órbitas da corte
espanhola, fixavam residência em Espanha, aceitavam
padrões espanhóis e escreviam cada vez mais em
castelhano, contribuindo para a riqueza do teatro, da
música ou da arte pictórica espanhóis e dando hoje a
impressão errada de uma decadência cultural a partir de
1580. A perda de uma individualidade cultural era
sentida por muitos portugueses, com reacções diversas a
favor da língua pátria e da sua expressão em termos de
prosa e poesia. Contudo, os intelectuais que assim
reagiam sabiam perfeitamente que os seus esforços seriam
vãos sem a recuperação da independência política.
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Economicamente, a situação
piorara desde a década de 1620 ou até antes.
Muitas das razões que haviam justificado a união
das duas coroas ficaram ultrapassadas com a
marcha da conjuntura económica. Todo o Império
Português atravessava uma séria crise com a
entrada em jogo de holandeses e ingleses.
Portugal perdera o monopólio comercial na Ásia,
África e Brasil, resultando daí que todos – a
Coroa, a nobreza, o clero e a burguesia – haviam
sofrido no montante das receitas. Os Espanhóis
reagiam fortemente contra a presença portuguesa
nos seus territórios, mediante vários processos,
entre os quais a Inquisição, situação que
suscitou grande animosidade nacionalista tanto
em Portugal como em Espanha, aprofundando o
fosso já cavado entre os dois países.
D. Margarida, duquesa de Mântua, neta de Filipe
II, exerceu o governo de Portugal com autoridade
de vice-rei e capitão-general de 1634 a 1640
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Mesmo em Portugal, a situação económica estava longe de
brilhante. Os produtores sofriam com a queda dos preços
do trigo, do azeite e do carvão, só para dar alguns
exemplos. A crise afectava as classes baixas, cuja
pobreza aumentou sem disfarces, como, aliás, em muitos
outros países da Europa. O aumento dos impostos tornava
a situação ainda pior. Para explicar os tempos difíceis
e apaziguar o descontentamento geral, a solução
apresentava-se fácil e óbvia: a Espanha, causa de todos
os males.
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A conspiração a favor da
independência começou em 1639, se não antes,
congregando um grupo heterogéneo de nobres,
clientes-funcionários da casa de Bragança, e
elementos do alto e baixo clero. Em Novembro de
1640, a conspiração dos aristocratas conseguiu
finalmente o apoio formal do duque de
Bragança.
Reunião dos Conspiradores de 1640. Painel de
azulejo no Palácio dos Condes de Almada, em
Lisboa.
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Na manhã do 1º de Dezembro, um grupo
de nobres atacou a sede do governo em Lisboa (Paço da
Ribeira), prendeu a duquesa de Mântua, e matou ou feriu
alguns membros da guarnição militar e funcionários,
entre os quais o Secretário de Estado, Miguel de
Vasconcelos. Seguidamente, os revoltosos percorreram a
cidade, aclamando o novo estado de coisas, secundados
pelo entusiasmo popular.
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D. João foi aclamado como D.
João IV, entrando em Lisboa alguns dias mais
tarde. Por quase todo o Portugal metropolitano e
ultramarino as notícias da mudança do regime e
do novo juramento de fidelidade ao Bragança
foram recebidas e obedecidas sem qualquer
dúvida. Apenas Ceuta permaneceu fiel à causa de
Filipe IV.
Como “governadores”, para
gerirem os negócios públicos até à chegada do
novo rei, foram escolhidos o arcebispo de
Lisboa, D. Rodrigo da Cunha, o de Braga, D.
Sebastião de Matos de Noronha, e o visconde de
Vila Nova de Cerveira, D. Lourenço de Lima. D.
João IV entrou em Lisboa a 6 de Dezembro,
cessando nesta data as funções dos
“governadores”.
Retrato de D. João IV, por Avelar Rebelo, em
1643 (Paço de Vila Viçosa)
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Proclamar a separação fora coisa
relativamente fácil. Mais difícil seria conseguir
mantê-la. Tal como em 1580, os portugueses de 1640
estavam longe de unidos. Se as classes inferiores
conservavam intacta a fé nacionalista e aderiram a D.
João IV sem sombra de dúvida, já a nobreza, muitas vezes
com laços familiares em Espanha, hesitou e só parte dela
alinhou firmemente com o duque de Bragança. O mesmo se
poderia afirmar em relação ao clero.
O novo monarca português não gozava
por certo de uma posição invejável. Do ponto de vista
teórico, tornava-se necessário justificar a secessão: o
novo monarca, longe de figurar como usurpador, reavera
simplesmente aquilo que por direito legítimo lhe
pertencia. Abundante bibliografia produzida em Portugal
e fora dele a partir de 1640 procurou demonstrar os
direitos reais do duque de Bragança. Se o trono jamais
estivera vago de direito, tanto em 1580 como em 1640,
não havia razões para qualquer tipo de eleição em
cortes, o que retirava ao povo a importância que ele
porventura teria, fosse o trono declarado vacante. |
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Numerosa literatura de pendor autonomista
proliferou visando a legitimação
da subida ao trono de D. João IV.
Todo o reinado (1640-56) foi
orientado por prioridades. Em primeiro lugar a
reorganização do aparelho militar, com reparação
de fortalezas das linhas defensivas
fronteiriças, fortalecimento das guarnições e
obtenção de material e reforços no estrangeiro.
Paralelamente, uma intensa actividade
diplomática junto das cortes da Europa – no
sentido de obter apoio militar e financeiro,
negociar tratados de paz ou de tréguas, e
conseguir o reconhecimento da Restauração – e a
reconquista do império ultramarino. A nível
interno, a estabilidade do regime dependeu,
antes de mais, do aniquilamento de toda a
dissensão a favor de Espanha.
A guerra da Restauração
mobilizou todos os esforços que Portugal podia
despender e absorveu enormes somas de dinheiro.
Pior do que isso, impediu o governo de conceder
ajuda às frequentemente atacadas possessões
ultramarinas. Mas, se o cerne do Império, pelo
menos na Ásia, teve de ser sacrificado, salvou
pelo menos a Metrópole de uma ocupação pelas
forças espanholas.
Portugal não dispunha de um
exército moderno, as suas forças eram escassas –
sobretudo na fronteira terrestre –, as suas
coudelarias haviam sido extintas, os seus
melhores generais lutavam pela Espanha algures
na Europa. Do lado português, tudo isto explica
por que motivo a guerra se limitou em geral a
operações fronteiriças de pouca envergadura. Do
lado espanhol, é preciso lembrar que a Guerra
dos Trinta Anos (prolongada em Espanha até 1659)
e a questão da Catalunha (até 1652) demoraram
quaisquer ofensivas de vulto. Regra geral, a
guerra, que se prolongou por 28 anos, teve os
seus altos e baixos para os dois contendores até
ser assinado o Tratado de Lisboa, em 13 de
Fevereiro de 1668, entre Afonso VI de Portugal e
Carlos II de Espanha, em que este último
reconhece a independência do nosso País.
Adaptado de A.
H. de Oliveira Marques, “A Restauração e suas
Consequências”, in História de Portugal,
vol. II, Do Renascimento às Revoluções
Liberais, Lisboa, Editorial Presença,
1998, pp. 176-201. |
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